Zé Ramalho chega aos 60 anos, ‘o meio do caminho’

Zé Ramalho chega aos 60 anos, ‘o meio do caminho’

Adriana Del Ré
Agência Estado

A voz do apocalipse. O Bob Dylan do agreste. O último profeta. Todos eles são o mesmo paraibano de Brejo do Cruz, José Ramalho Neto, que amanhã (03) completa exatos 60 anos. Da infância difícil no sertão, foi resgatado pelo avô, que assumiu o papel de pai quando o legítimo morreu afogado num açude. Mais tarde, o avô foi eternizado na mítica “Avôhai” pelo neto músico que desistiu de ser o neto doutor. Zé Ramalho chegou a cursar Medicina, porém, no segundo ano, percebeu que estava predestino à música. Ouviu muito Beatles, Jovem Guarda, Bob Dylan, tocou em bailes, descobriu o repente dos violeiros e estabeleceu uma conexão com a canção nordestina. São mais de 40 anos de carreira. Atualmente, está em estúdio participando da trilha sonora do filme “O Bem Amado” e, numa brecha, falou com a reportagem por e-mail.

AGÊNCIA ESTADO – Você disponibilizaria todo um disco seu na internet e deixaria que os internautas pagassem quanto quisessem?

ZÉ RAMALHO – Não faria isso, até porque a arrecadação é a mínima possível. Não acho justo disponibilizar frações de um disco. Um CD é um trabalho completo, não pode ser pinçado, porque o ouvinte não atingirá o conceito amplo e total que o artista imprimiu nele.

AE – Conte como era seu avô, que criou você como se fosse seu pai. Ele viveu para ver o neto se tornar um músico de sucesso?

ZÉ RAMALHO – Ele não viu a carreira decolar, faleceu antes, mas chegou a ouvir a música “Avôhai”. Cantei a música diretamente para ele durante uma reunião de artistas na minha casa, em João Pessoa. Ele escutou sentado, apoiando o queixo em sua bengala. Não disse nada, mas a ouviu inteira e todos sabiam que ele estava entendendo. Ele me ensinou coisas básicas, como amar a natureza, não maltratar os animais e ser honesto.

AE – E como é o Zé Ramalho avô? Muito diferente dele?

ZÉ REMALHO – Claro que é diferente! Meus netos ficam com seus pais. Quando me visitam, são visitas combinadas, com horário para chegar e sair. São relações diferentes, mas não tem nada a ver com o sentido espiritual de “Avôhai”.

AE – Até que ponto a cocaína foi catalisadora de sua criatividade e em que momento passou a ser prejudicial?

ZÉ RAMALHO – No início, era envolvente, o organismo estava recebendo essa “invasão alienígena” e era manifestada em músicas, como “Frevo Mulher”, “Galope Rasante”, “A Terceira Lâmina”. Mas, com o passar do tempo, ela passou a confundir e me escravizar.

AE – Como foi sentir o baque das acusações de plágio, como “Força Verde”?

ZÉ RAMALHO – O plágio é um fenômeno que acontece entre artistas e a mídia. Artistas como George Harrison, que teve um super sucesso mundial com “My Sweet Lord”, foi acusado de plágio e teve de responder pessoalmente nos tribunais, perdendo a causa! Ou Roberto e Erasmo, acusados também de plágio na música “O Careta”, também responderam na Justiça. No meu caso, nunca fui a um tribunal nem recebi acusação judicial formal. Foi puramente inveja da mídia em geral, pois eu estava em muita evidência naquela época.

AE – Você disse numa entrevista recente que não chegou a ser garoto de programa, mas que havia garotas que dormiam com você. Você dormia com elas em troca de teto e comida, ou de grana mesmo?

ZÉ RAMALHO – As duas coisas. Não era uma cobrança, mas era percebido pelas minhas “amigas”, que penalizadas com a minha situação, me davam alguns valores em dinheiro para eu me virar. Esses fatos inspiraram a canção “Garoto de Aluguel”.

AE – Depois da experiência com alienígenas em “Avôhai”, você teve outro contato do gênero?

ZÉ RAMALHO – Não. Só em sonhos. Sonho frequentemente com discos voadores, o que não deixa de ser uma revelação, pois foi a presença alienígena que senti durante a experiência que resultou em “Avôhai”. Foi única, espiritual e mediúnica.

AE – Para você, como foi aquele período do projeto Grande Encontro, com Elba, Alceu Valença e Geraldo Azevedo? Chegou-se a dizer que houve um conflito de egos.

ZÉ RAMALHO – O início do Grande Encontro foi histórico para a música brasileira. A reunião dos quatro grandes nomes desta geração de nordestinos resultou num show de altíssimo nível, que foi registrado e entrou para a história da MPB. A sequência do Grande Encontro foi o que causou um grande desencontro. É natural que os egos aflorem e é natural que tivesse um fim também.

AE – Quais canções suas você acredita que não tiveram o justo sucesso?

ZÉ RAMALHO – Não tenho essa expectativa. Mas, logo no início, eu não achava que “Chão de Giz” seria uma música de sucesso. E achava que “Vila do Sossego” seria.

AE – Se você fosse fazer uma trilha sonora que resumisse musicalmente esses 60 anos de vida, quais músicas você escolheria?

ZÉ RAMALHO – Começaria por “Disparada”, do Vandré. Meu autorretrato é uma música que o Mautner fez para mim e que deu título ao meu quinto disco, “Orquídea Negra”. É como se ele me dissesse: “Zé, você é a orquídea negra, que brotou da máquina selvagem, e o anjo do impossível plantou como nova paisagem”… Tem uma música minha, “Beira-Mar”, que diz: “E até que a morte eu sinta chegando, prossigo cantando.” É o começo, o meio e o fim. Vou parafrasear Bob Dylan: “Me sinto como se estivesse no meio do caminho. Vamos para os próximos 60 anos!”

 

FONTE: http://www.diariodecuiaba.com.br/detalhe.php?cod=357284

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